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REData e data centers no Brasil: o incentivo pode abrir uma nova frente de investimentos, mas o capital precisa chegar ao endereço certo

há 11 minutos
9 min de leitura

O Brasil acaba de dar um passo importante na disputa por investimentos em uma das infraestruturas mais estratégicas da nova economia: os data centers.

Com a sanção da Lei nº 15.504, de 15 de setembro de 2026, que instituiu o REData, Regime Especial de Tributação para Serviços de Datacenter, o país criou um novo ambiente de incentivo para a instalação, modernização e expansão desse tipo de infraestrutura.

A mudança é importante.


Mas, olhando para o investidor, acredito que existe uma pergunta ainda mais relevante do que conhecer o benefício fiscal:


O projeto está sendo implantado no local certo para receber esse capital?

O REData pode melhorar significativamente a equação econômica de um empreendimento. No entanto, nenhum incentivo fiscal consegue compensar totalmente uma localização inadequada, a indisponibilidade de energia, restrições ambientais identificadas tardiamente, problemas urbanísticos ou um cronograma regulatório incompatível com o plano de investimento.


É justamente nesse ponto que começa a verdadeira discussão a respeito da implantação de data centers no Brasil.


O que o REData muda para quem pretende investir em data centers no Brasil?


O REData cria incentivos tributários relacionados à aquisição e à importação de determinados produtos de tecnologia da informação e comunicação destinados ao ativo imobilizado das empresas habilitadas.


O regime contempla estruturas destinadas ao armazenamento, processamento e gestão de dados, incluindo computação em nuvem, processamento de alto desempenho, treinamento e uso de modelos de inteligência artificial.


Na prática, isso mostra que o Brasil não está criando apenas um incentivo para receber mais data centers. Está criando condições para atrair parte da infraestrutura necessária à próxima geração da economia digital.


Para o investidor, o impacto pode começar diretamente no custo de implantação.

Em projetos muito dependentes de servidores, GPUs, equipamentos de rede, sistemas de armazenamento e outros componentes tecnológicos, a redução da carga tributária incidente sobre itens elegíveis pode tornar a implantação no Brasil mais competitiva.

Isso pode fazer com que projetos que antes não fechavam economicamente voltem a ser analisados.


Por que o REData pode aumentar o investimento estrangeiro no Brasil?


O capital internacional compara países.

Um fundo, operador global ou empresa de tecnologia não pergunta apenas se existe demanda no Brasil. A decisão envolve uma combinação muito maior de fatores:

  • retorno;

  • energia;

  • conectividade;

  • segurança regulatória;

  • sustentabilidade;

  • prazo de implantação;

  • capacidade de expansão.


O Brasil já possui características interessantes nessa disputa. Tem um grande mercado consumidor, demanda digital crescente, matriz elétrica com forte participação renovável, território disponível e uma posição relevante na América Latina.

O REData acrescenta um elemento que faltava à equação: maior competitividade tributária para a infraestrutura tecnológica.


Isso pode ajudar a reduzir parte da diferença entre investir no Brasil e direcionar o mesmo capital para outro país.


Em investimentos de grande porte, uma diferença relativamente pequena no custo total pode alterar significativamente o retorno do empreendimento.


O REData também pode mudar o mapa brasileiro dos data centers


A consequência do novo regime talvez não seja apenas o aumento do número de data centers. Podemos passar a ter novos polos de desenvolvimento.

A legislação cria condições diferenciadas para determinadas obrigações relacionadas a projetos instalados nas regiões Norte, Nordeste e Centro-Oeste.


Isso pode estimular uma distribuição maior dos investimentos pelo país e abrir oportunidades para estados e municípios capazes de oferecer uma combinação competitiva de:

  • energia;

  • conectividade;

  • terrenos adequados;

  • infraestrutura;

  • segurança regulatória;

  • velocidade de implantação.


Essa transformação também muda a lógica imobiliária.

Um terreno destinado a um data center não pode ser analisado apenas por tamanho, localização ou preço por metro quadrado. Ele precisa responder a perguntas muito diferentes das que normalmente orientam uma avaliação imobiliária convencional.


O que realmente torna um terreno adequado para um data center?

A análise de um terreno destinado à implantação de um data center precisa considerar diferentes dimensões técnicas, regulatórias, imobiliárias e operacionais.


Energia

O primeiro ponto é a disponibilidade energética:

  • Qual capacidade pode ser disponibilizada?

  • Existe possibilidade real de obter 50 MW, 100 MW, 200 MW ou mais?

  • Em quanto tempo essa energia poderá ser disponibilizada?

  • Onde está o ponto de conexão?

  • Existe redundância?

  • Há capacidade futura para expansão?

  • A origem da energia atende às condições previstas para o projeto e para o REData?


Urbanismo

Também é necessário analisar as condições urbanísticas:

  • A atividade é permitida naquele local?

  • Quais são os parâmetros construtivos?

  • Existem restrições de altura, ocupação, recuos ou uso?

  • Há espaço para expansão futura?


Meio ambiente e recursos hídricos

No campo ambiental, é preciso verificar a existência de áreas protegidas, vegetação, recursos hídricos, passivos de contaminação e outras possíveis restrições.

A estratégia de uso da água e de resfriamento também deve ser avaliada desde o início, especialmente porque a legislação estabelece critérios de eficiência hídrica.


Conectividade

A conectividade é outro ponto central:

  • Existe fibra disponível?

  • Há possibilidade de utilizar rotas distintas?

  • A redundância é suficiente para o nível de operação pretendido?


Infraestrutura e situação imobiliária

Ainda precisam ser consideradas questões relacionadas a acessos, infraestrutura viária, redes disponíveis, matrícula, servidões, ônus e outras restrições jurídicas ou imobiliárias.

Por isso, em um projeto de data center, escolher o terreno também significa decidir onde alocar capital.


O terreno mais barato pode acabar sendo o investimento mais caro


Esse é um dos pontos que considero mais importantes.

Imagine duas áreas.


A primeira tem preço de aquisição menor, mas a conexão elétrica só estará disponível em alguns anos, exige reforço relevante da rede, apresenta maior complexidade ambiental e oferece pouca capacidade de expansão.


A segunda custa mais, mas já possui melhores condições de energia, zoneamento compatível, infraestrutura adequada e menor risco regulatório.

Qual delas é realmente mais barata?

A resposta não está apenas no preço do terreno. Está no custo total necessário para colocar o empreendimento em operação.

Por isso, acredito que o verdadeiro valor de um terreno para data center também está na quantidade de riscos eliminados antes da aquisição.


O EVTL ganha uma nova dimensão

O Estudo de Viabilidade Técnica e Legal, EVTL, é tradicionalmente utilizado para avaliar as condições de implantação de um empreendimento em determinado imóvel.

Para data centers, porém, ele precisa ir além.


O EVTL deve funcionar como uma ferramenta de apoio à decisão de investimento.

Não basta responder:

“É possível instalar?”

O estudo também precisa ajudar a responder:

“Este local está suficientemente preparado para justificar a próxima etapa do investimento?”

Essa diferença é pequena na forma, mas enorme na prática.


Como o EVTL pode reduzir o risco do investidor?

Um EVTL voltado para data centers deve reunir diferentes dimensões da decisão.


Análise urbanística

Identifica o uso permitido, os parâmetros construtivos, as limitações existentes e a capacidade de expansão.


Análise imobiliária

Verifica matrícula, titularidade, restrições, servidões e interferências relevantes.


Análise energética

Avalia capacidade, conexão, expansão, redundância, origem da energia e principais condicionantes.


Análise ambiental

Mapeia necessidades de licenciamento, vegetação, água, contaminação e outras possíveis restrições.

Também devem ser avaliados:

  • conectividade;

  • acessos;

  • infraestrutura disponível;

  • segurança contra incêndio;

  • jornada de licenciamento;

  • condições do REData capazes de afetar o projeto.

O resultado do estudo precisa demonstrar claramente:

  • o que é favorável;

  • o que depende de alguma ação;

  • o que representa risco;

  • o que precisa ser resolvido antes de avançar.


A decisão continua sendo do investidor, mas passa a ser tomada com muito mais segurança.


A análise comparativa é essencial para quem avalia vários terrenos


Quando um investidor avalia vários locais simultaneamente, é comum receber informações diferentes de cada proprietário.


Um apresenta a questão energética. Outro apresenta apenas a matrícula. Um terceiro garante verbalmente que a atividade é permitida. Outro possui um estudo ambiental antigo.

Essa falta de padronização dificulta a comparação.


Um EVTL bem estruturado permite analisar todos os locais utilizando os mesmos critérios. Com isso, o investidor consegue identificar qual área oferece a melhor combinação entre:

  • viabilidade;

  • prazo;

  • risco;

  • investimento necessário;

  • capacidade de expansão.


O REData traz benefícios, mas também exige cuidados

O regime não deve ser analisado apenas pelo lado do incentivo fiscal.

Existem obrigações que precisam ser incorporadas ao planejamento do empreendimento desde o início. Entre elas estão compromissos relacionados a:

  • atendimento do mercado brasileiro;

  • investimentos em pesquisa e inovação;

  • utilização de energia renovável ou de baixa emissão;

  • eficiência hídrica;

  • sustentabilidade;

  • regularidade fiscal.


Por isso, o planejamento para utilização do REData deve começar antes das aquisições e da implantação. O ideal é que o investidor trabalhe de forma integrada com especialistas tributários, jurídicos, regulatórios, ambientais, energéticos e de engenharia.


O maior risco é descobrir tarde

Em projetos de grande porte, os problemas nem sempre aparecem de uma vez. Muitas vezes, surgem como pequenas premissas mal avaliadas:

  • um prazo de energia considerado sem validação;

  • uma restrição ambiental descoberta depois da aquisição;

  • uma licença que não entrou no cronograma;

  • uma exigência municipal subestimada;

  • um projeto desenvolvido antes da compreensão completa das regras locais.


Separadamente, cada problema pode parecer administrável. Somados, podem resultar em atrasos, aumento de custos, revisão do projeto e redução do retorno do investimento.

É por isso que acredito tanto na importância de uma análise bem-feita no início.


Problemas descobertos cedo ainda são decisões. Problemas descobertos tarde passam a ser custos.


Depois do EVTL começa outro desafio: implantar

Escolher o local certo é apenas a primeira parte.

A implantação de um data center envolve prefeitura, órgãos ambientais, concessionárias de energia, Corpo de Bombeiros, empresas de telecomunicações, projetistas, construtoras, investidores, proprietários, equipes jurídicas, consultores e várias outras frentes.

O desafio não está apenas na quantidade de envolvidos. Está na dependência entre eles.

Uma alteração ambiental pode modificar o projeto. Uma mudança no projeto pode interferir na aprovação do Corpo de Bombeiros. Uma condição da concessionária pode exigir nova infraestrutura.


Tudo isso pode afetar prazo e investimento.

Por esse motivo, o licenciamento precisa ser tratado como parte da estratégia do empreendimento.


Por que uma empresa especializada em implantação faz diferença?

Implantar não significa apenas acompanhar protocolos. Significa organizar toda a jornada regulatória do projeto.

Uma implantação estruturada deve trabalhar desde o início com:

  • licenças necessárias;

  • órgãos envolvidos;

  • documentação;

  • responsáveis;

  • dependências;

  • cronograma;

  • condicionantes;

  • riscos;

  • prazos;

  • interfaces com os projetos;

  • respostas às exigências;

  • gestão documental;

  • acompanhamento até a operação.


O objetivo não é apenas obter licenças. É fazer com que projeto, licenciamento, construção e estratégia de investimento caminhem juntos.


O investidor estrangeiro precisa de previsibilidade

Quem entra em um novo país precisa transformar a complexidade local em informação clara. Um comitê de investimento deveria conseguir olhar para um projeto no Brasil e entender rapidamente:

  • O local foi analisado?

  • A atividade é permitida?

  • Há energia disponível?

  • Existe possibilidade de expansão?

  • A conectividade é adequada?

  • Os principais riscos ambientais são conhecidos?

  • O caminho de licenciamento está definido?

  • O REData foi considerado?

  • O cronograma regulatório está integrado ao cronograma do projeto?

  • Os riscos estão classificados?

  • Existe um plano de ação?


Quando essas respostas existem, a percepção do investimento muda.

O terreno deixa de ser apenas uma área disponível e passa a ser um local preparado para receber capital.


Uma nova categoria de ativo pode surgir no Brasil

A expansão dos data centers pode criar uma nova forma de olhar para terrenos.

Eles deixam de ser apenas áreas disponíveis para desenvolvimento e passam a ser locais previamente analisados e preparados para esse tipo de infraestrutura.

Terrenos com condições energéticas, urbanísticas, ambientais, imobiliárias e de conectividade previamente avaliadas tendem a reduzir o tempo necessário para a tomada de decisão.


Isso pode beneficiar proprietários, fundos, desenvolvedores e investidores internacionais.


O que avaliar antes de escolher um local para data center no Brasil?

Antes de comprometer capital relevante, algumas perguntas precisam estar respondidas:

  • A atividade é permitida?

  • Existe energia suficiente e em qual prazo?

  • A capacidade energética pode acompanhar futuras expansões?

  • A origem da energia atende às exigências do projeto?

  • Quais licenças ambientais serão necessárias?

  • Existem restrições urbanísticas, ambientais ou imobiliárias?

  • A conectividade é adequada e possui redundância?

  • A estratégia de água e resfriamento é viável?

  • Qual é o caminho regulatório até a operação?

  • O cronograma regulatório é compatível com o cronograma financeiro?

  • Quais condições precisam ser atendidas para utilização do REData?

  • O local comporta a expansão prevista para os próximos anos?


Se essas respostas ainda não existem, provavelmente ainda é cedo para uma decisão definitiva de investimento.


O REData abre a oportunidade. A preparação do local definirá quem conseguirá aproveitá-la melhor


O Brasil ganhou uma ferramenta importante para competir por investimentos em infraestrutura digital. O REData pode reduzir custos de implantação, atrair capital estrangeiro, estimular novos polos de data centers e fortalecer áreas como inteligência artificial, computação em nuvem e pesquisa.


Mas o incentivo não elimina os riscos de implantação.

Na minha visão, quanto maior for o volume de capital chegando ao setor, maior será a necessidade de análises técnicas, regulatórias e imobiliárias completas.

É nesse momento que o EVTL deixa de ser apenas um estudo e passa a funcionar como uma ferramenta de proteção do investimento.

Na Sanrlei Polini Engenharia Consultiva, trabalhamos há mais de 25 anos nessa interface entre imóvel, legislação, viabilidade, licenciamento e implantação.

Nos projetos de data centers, esse conhecimento pode ser aplicado desde a análise comparativa de diferentes locais até a definição da estratégia regulatória e o acompanhamento da implantação.

Porque, no fim, a pergunta não é apenas:

“Onde existe terreno disponível no Brasil?”

A pergunta realmente importante é:

“Qual local reúne energia, infraestrutura, viabilidade regulatória, capacidade de expansão e previsibilidade suficientes para receber capital de longo prazo?”

Encontrar essa resposta antes de investir pode ser uma das decisões mais valiosas de todo o projeto.

 
 
 

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